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29/08/2008
Um homem de múltiplas
atividades
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Divulgação
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100 anos de Josué de Castro
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O Médico
Graduado em medicina, pôde, sob o
aspecto biológico, conhecer o homem e compreender suas carências e
necessidades. Esta foi a sua porta de entrada para o mundo da ciência. No
início da década de 1930, começou a clinicar em Recife. Chegou à nutrição
por acaso. É ele mesmo quem afirmava:
"Eu, na realidade queria ser psiquiatra
mas o Ulhoa Cintra (outro médico) tinha
dois aparelhos de metabolismo. Me vendeu um e resolvi fazer nutrição. Um só
livro O Tratado de Umber figurava na biblioteca.
As doenças da nutrição eram cinco na época: obesidade, magreza, diabete,
gota e reumatismo. Como era coisa nova, passei a ter uma clínica brutal,
apesar de minha cara de menino que assustava os primeiros clientes".
Começou também a trabalhar como médico em uma grande fábrica. Foi
nesta fábrica que pela primeira vez pôde avaliar as conseqüências da fome,
em episódio por ele narrado:
"Comecei, também, a trabalhar numa
grande fábrica e a verificar que os doentes não tinham uma doença definida,
mas não podiam trabalhar. Eram acusados de preguiça. No fim de algum tempo,
compreendi o que se passava com os enfermos. Disse aos patrões: sei o que
meus clientes têm. Mas não posso curá-los porque sou médico e não diretor
daqui. A doença desta gente é fome. Pediram que eu me demitisse. Saí.
Compreendi, então, que o problema era social. Não era só do Mocambo, não
era só do Recife, nem só do Brasil, nem só do continente. Era um problema
mundial, um drama universal".
Ficou evidenciada a limitação da Medicina
para tratar da doença da fome, o que levará o inquieto Josué a procurar outras
áreas de conhecimento e atuação relacionando-as com o conhecimento médico,
o que será a marca de suas futuras obras.
A partir de sua prática realiza, em 1932, o inquérito As condições de vida
das classes operárias do Recife, o primeiro do gênero no país, onde Josué
assinala a gravidade dos efeitos da fome, na época ocultada por explicações
baseadas em preconceitos raciais e climáticos. Pela primeira vez são
estabelecidas relações diretas entre a produtividade do trabalhador e sua
alimentação, bem como são examinadas suas condições de
vida, seu tipo de moradia e seu salário. Este trabalho pioneiro foi
um divisor de águas para a história da nutrição no Brasil. A partir de sua
publicação já era possível identificar nos jornais notícias sobre o que se
denominou “alimentação racional do povo”. Este inquérito acabou sendo uma
das bases para a institucionalização do salário mínimo no governo de
Getúlio Vargas, em 1940.
No Rio de Janeiro, abre seu consultório
médico como clínico e especialista em doenças de nutrição em 1936, e o
manterá até 1955.
O Professor
Homem profundamente
inteligente, metódico e determinado construiu uma sólida base científica
que pôde exercitar, principalmente, na atividade docente que, sem sombra de
dúvida, foi a que mais lhe trouxe satisfação, quer pelo contato com os
jovens ou por lhe permitir produtivo trabalho de pesquisa.
Em 1932, Josué torna-se livre-docente em Fisiologia na Faculdade de
Medicina do Recife com a tese O problema fisiológico da alimentação no
Brasil, publicado no ano seguinte, na qual aborda as necessidades
específicas da alimentação no contexto brasileiro.
No ano seguinte, participa do grupo que idealiza e funda a Faculdade de
Filosofia e Ciências Sociais do Recife, onde trabalha como professor de
Geografia Humana.
Jamesson Ferreira de Lima descreve os méritos do
jovem professor:
"Corria o ano de 1934 e com ele
a fama de um docente de fisiologia, bem moço, da Faculdade de Medicina do
Recife, no Derby, dizendo-se que a magia de sua palavra imobilizava os ouvintes.
E um dia, naquele tempo, Aloysio André Gomes retirou da sombra do arvoredo
copado, no oitão da escola, “O Casíno” – como era
chamado – um grupo de colegas seus, do segundo ano curricular, para ouvir o
professor da palavra encantada, que se chamava Josué de Castro.
Fui, com ele, Luiz Montenegro Chaves,
ao lado de outros e nos deparamos na sala de aula, com um jovem moreno, na
casa dos vinte, magro e alto, de calças escuras e paletó pesado, cinzento
esverdeado, estilo europeu, falando sobre metabolismo basal.
O assunto pouco tinha de
particularmente agradável. Ao contrário, era meio difícil e técnico. Mas o
conteúdo decorria em prosa ágil, viva, e a figura do expositor se situava
numa contradição entre o ar pretensioso e a maneira simpática e eloqüente da
preleção".
No Rio de Janeiro, Josué prossegue sua carreira de professor, a
partir de 1936, lecionando Antropologia na Universidade do Distrito
Federal.
Em 1946, participa da fundação e torna-se o primeiro diretor do Instituto
de Nutrição da Universidade do Brasil, atual Instituto de Nutrição Josué de
Castro da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Efetiva-se, em 1948, através de concurso, como professor da
Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, para a cátedra
de Geografia Humana, defendendo a tese Fatores de localização da cidade do
Recife, publicada no mesmo ano. Permanecerá professor até 1964.
Em 1950 recebe condecorações como professor Honoris-Causa
da Universidade de San Domingos, na República
Dominicana, e da Universidade de San Marcos, no
Peru.
No exílio em Paris, é designado, em 1969, Professor Estrangeiro
Associado ao Centro Universitário Experimental de Vincennes
(Universidade de Paris VIII), como responsável pela cadeira de Geografia dos
Países Subdesenvolvidos. Também participa do corpo docente de pós-graduação
no Instituto de Altos Estudos para a América Latina, da Universidade de
Paris.
O Cientista
Um aspecto que merece destaque, na sua
formação, é a extrema sensibilidade que Josué desenvolveu e que foi capaz
de lhe permitir a perfeita análise e interligação de fatos, aparentemente
distantes do ponto de vista científico. Foi desta forma, considerando
conceitos multi e interdisciplinares, que
concebeu seus principais estudos.
Para compreender a fome, seu principal objeto de estudo, entendia
que eram necessários conhecimentos fisiológicos articulados com
conhecimentos das ciências sociais. Vale-se da Geografia Humana para
ordenar as características regionais de alimentação.
As Ações Públicas
O êxito de suas investigações, além de
sua grande capacidade de comunicação, levaram Josué a uma posição de
destaque na organização de políticas públicas para a nutrição.
Em 1940, participa da Sociedade Brasileira de Alimentação, composta
de futuros dirigentes do Serviço de Alimentação da Previdência Social
(SAPS), criado no mesmo ano. Entre as ações do SAPS destacam-se a criação
de restaurantes populares, o fornecimento de alimentos por alguns
empregadores e a participação na educação alimentar:
No mesmo ano é criada a Sociedade Brasileira de Nutrição, da qual
Josué foi um dos fundadores e presidente por dois anos. Esta sociedade
buscava colaborar com o Estado na execução de políticas públicas e promover
estudos e pesquisas que tratassem da alimentação como uma questão social.
Vários países da América Latina o convidam para colaborar com a
elaboração de projetos para a alimentação.
Em 1943, idealiza e é designado Diretor do Serviço Técnico de
Alimentação Nacional (STAN) que surge no contexto da desestruturação da
economia mundial durante a II Guerra. O STAN realizou pesquisas e
experimentos na área de tecnologia alimentar e publicou o
periódico Arquivos Brasileiros de Nutrição, a partir de 1944.
Em 1945, O STAN é substituído pela Comissão Nacional de Alimentação
(CNA), que Josué de Castro passa também a dirigir até 1954. Era um órgão do
Conselho Federal de Comércio Exterior que tratava de dar um caráter mais
permanente às atividades iniciadas pelo STAN: educação alimentar e
assistência à indústria nacional de alimentos.
Em 1951, é idealizada a Comissão Nacional de Bem-Estar Social
(CNBS) sob a presidência do Ministro do Trabalho e a vice-presidência de
Josué
de Castro.
Castro é eleito Presidente do Conselho Executivo da FAO, Órgão das Nações Unidas
para Agricultura e Alimentação, sediado em Roma, ocupando este cargo entre
1952 a 1956.
A partir das conclusões resultantes da da Terceira Conferência Latino-Americana de
Nutrição, em 1953, Josué apresenta no Brasil o Plano Nacional de
Alimentação, sob a responsabilidade da Comissão Nacional de Alimentação.
Eleito Deputado Federal por Pernambuco, assume o mandato em 1955, quando torna-se vice-líder do PTB e Presidente da Comissão de
Saúde da Câmara dos Deputados. Graças ao empenho de Josué, foi implantada a
Campanha Nacional de Merenda Escolar, subordinada ao MEC.
Em 1957, participa da fundação e preside a Associação Mundial de Luta
Contra a Fome (Ascofam). No Brasil, uma série de
ações visando o conhecimento e o combate à fome foram
realizadas pela Ascofam, entre elas o I
Seminário sobre Desnutrição e Endemias Rurais, na cidade de Garanhuns, em
1958, e o filme O Drama das secas, dirigida por Rodolfo Nanni,
a partir de um roteiro de Josué de Castro.
É reeleito Deputado Federal por Pernambuco, em 1958, desta vez sendo o mais
votado do Nordeste. Na Câmara dos Deputados, apresenta o projeto de lei que
“define os casos de desapropriação por interesse social e dispõe sobre sua
aplicação”, sua proposta para uma reforma agrária, em 1959.
É eleito, em 1960, Presidente do Comitê Governamental da Campanha Mundial
de Luta Contra a Fome, uma iniciativa da FAO.
Em 1962, é designado Embaixador-chefe da delegação do Brasil junto à ONU,
em Genebra, cargo que será forçado a abandonar em 1964 pelo arbítrio do
regime militar.
Fonte: http://www.projetomemoria.art.br/JosuedeCastro/cont_bio3.htm
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