Notícias


| Home | Voltar | Imprimir | Livro de Visitas

 

 

18/10/2008

O Cidadão de Papel

A infância, a adolescência e os direitos humanos no Brasil

Por Gilberto Dimensteis (Fichamento de Julia ORTEGA GONCALVES)

 

Introdução

Foto: Divulgação

O Cidadão de Papel

Capa do Livro ‘O cidadão de Papel’

 

A violência sempre tem seu lugar reservado nos principais meios de comunicação. Ela não seleciona a vítima nem local e data.

 

Nas escolas ela vem se destacando. Em São Paulo muitas guangues de adolescentes atacam estudantes, chegando até a matar se necessário, para levar objetos pessoais. Em defesa, alguns estudantes vão armados para a escola, pensando estarem mais seguros. A maioria é a favor da pena de morte, revelando mais um desejo de vingança do que de justiça.

 

Muitos são os tópicos para a violência crescente, como, o desemprego, falta de escola, inflação, migração, desnutrição, desrespeito sistemático aos direitos humanos. A cidadania brasileira é garantida nos papéis, mas não existe de verdade. É a cidadania de papel.

As conseqüências afetam o presente e o futuro com a pobreza constante, fraco desenvolvimento econômico, altas taxas de crescimento populacional e destruição ambiental.

 

I - Cidadania

 

Andar pelas ruas da cidade e defrontar com meninos de rua tornou-se cena comum do cotidiano, mas na verdade é pura ausência de cidadania. O sintoma mais claro da crise social. Um círculo vicioso, já que os pais são pobres e não conseguem garantir a educação dos filhos. Eles vão continuar pobres, pois não arrumam bons empregos. E logo, seus filhos também não terão condições de progredir.

 

As principais vítimas são as crianças e os idosos vivendo numa sociedade que não os respeitam. Falta bom senso com a cidadania.

 

Cidadania é o direito de ter uma idéia e poder expressa-la. O direito de ter direitos é uma conquista da humanidade. Lutou-se pela idéia de que todos os homens merecem a liberdade e de que todos são iguais perante a lei.

 

Trabalhadores em todo mundo ganharam direitos. As mulheres passaram a poder votar, marco da cidadania.

 

Em 1948, surgiu a Declaração Universal dos Direitos do Homem, aprovada pela Organização das Nações Unidas (ONU). Com essa declaração, além da liberdade de votar, de não ser perseguido por suas convicções, o homem tinha direito a uma vida digna. É o direito ao bem-estar.

 

Atualmente, cada vez mais se aprimoram os direitos das crianças. Um menino de rua é a prova da carência de cidadania de todo um país, onde uma imensa quantidade de garantias não saiu do papel da Constituição. No futuro, o menino de rua será visto como hoje são vistos os escravos.

 

II - Violência

 

A violência está presente na vida de todos brasileiros. O Brasil passou a conhecer um novo êxodo: cidadãos inconformados com a falta de segurança mudam-se para o exterior.

 

Fala-se que a violência atingiu um nível tão alto que o Brasil vive uma guerra civil.

 

Outra grande aliada da violência é a impunidade. Verificou-se que o sistema utilizado para a investigação e punição dos criminosos está estabelecido de forma a impossibilitar a fiscalização de quem quer que seja. Das muitas ocorrências de morte, metade chegam à Justiça. Os inquéritos policiais ficam arquivados nas próprias delegacias, sem chegar a nenhuma conclusão.

 

Inúmeros documentos feitos no exterior referem-se à violência brasileira. As revelações servem para mostrar que, apesar de o país ser democrático, não garante o direito mais elementar de um indivíduo, o direito à vida.

 

Em 1988, os deputados e senadores redigiram uma nova Constituição, onde estão nossos direitos. Baseado nessa Constituição o Congresso aprovou o Estatuto da Criança e do Adolescente. Esse documento estabeleceu detalhadamente o papel do Estado, da família e da sociedade.

 

Sensível ao Estatuto e impulsionado pela indignação, um grupo de parlamentares resolveu, em 1991, criar uma Comissão Parlamentar de inquérito (CPI) para investigar denúncias de violência contra crianças. Sua função é esclarecer problemas, revelar as causas e propor soluções.

 

De posse das denúncias colhidas, a Procuradoria Geral da República ou entidade responsáveis pela fiscalização da lei nos Estados e municípios aciona a Justiça para as devidas punições.

 

Está comprovado que a violência só gera violência. A rua serve para a criança como uma escola preparatória. Vítimas de uma sociedade que não consegue garantir um mínimo de paz social.

 

Paz social significa poder andar na rua sem se preocupar em ser assaltado, seqüestrado. É nunca desejar comprar uma arma para se defender ou refugiar-se no exterior.

 

A história brasileira está marcada pela violência dos poderosos contra os mais fracos. Ela se inicia com o massacre de índios, que até o descobrimento não sabiam o era fome nem desigualdade social.

 

A partir daí o Brasil entrou na rota da escravidão negra. Escravo era coisa, não gente. O Brasil foi a última nação independente a acabar com a escravidão. Esse fato deixou marcas profundas na cultura nacional.

 

Historicamente a questão do menino de rua aparece como conseqüência direta da escravidão. Esses meninos eram filhos de escravos. Por falta de instrução e qualificação, eles tinham dificuldades para encontrar espaço no mercado de trabalho.

 

Uma das heranças da escravidão é o preconceito contra negros e mulatos, cuja imagem é ligada à delinqüência.

 

III - Ética

 

É nossa consciência que nos orienta para que ajamos eticamente ou de maneira indigna, que cria em nós conceitos de certo e errado.

 

Um dos problemas do Brasil, junto com a miséria, a violência, o desemprego, a má distribuição de renda, é a falta de ética. E, no entanto, ética é uma das palavras mais presentes nos discursos de nossa classe dirigente.

 

Ética é uma atitude desejável em qualquer pessoa, independentemente de seu nível social.

 

A falta de ética dos políticos não se restringe ao universo deles. Ela tem repercussões sociais profundas e terríveis, e suas conseqüências podem se estender por muitos anos.

 

Por causa da corrupção, milhões de reais são desviados todos os anos para o bolso dos corruptos, em vez de se destinarem à construção de escolas, hospitais, estradas.

 

E, o que é pior: quanto maior o grau de escolaridade, menor a propensão do brasileiro a querer beneficiar-se pessoalmente. Estudos mostram que a instrução escolar do brasileiro não significa, a rigor, retidão moral e ética.

 

Suborno, propina, gorjeta. Cerca de metade das empresas brasileiras já se viu “obrigada” a fazer algum tipo de “contribuição” a políticos e servidores públicos para tirar algum tipo de vantagem.

 

Longe de chocar, corrupção é até vista como normal em alguns casos.

 

IV – Mortandade Infantil

 

O PIB (Produto Interno Bruto) é a soma das riquezas produzidas por um país em um dado período. Pelo PIB dá para ter idéia se um país pertence ao Primeiro ou a Terceiro Mundo.

 

Mas somente o PIB é pouco para analisar a economia. Por isso os economistas utilizam o PIB per capita, que é a soma das riquezas produzidas no país dividida pelo número de seus habitantes. Pelo PIB per capita temos uma noção mais aproximada da situação econômica de seus habitantes.

 

Mas só teremos uma noção mais exata do desenvolvimento de um país se verificarmos seus indicadores sociais.

 

Há uma série de estatísticas que mostram a diferença entre desenvolvimento econômico e desenvolvimento social. A mais reveladora delas é a taxa de mortalidade infantil. Ela retrata com mais profundidade as condições de saúde de um povo, pois tem a ver diretamente com nutrição, educação, saneamento básico (água e esgoto) e habitação.

 

Esses dados dão uma idéia mais realista do poder aquisitivo da população e de suas condições de vida.

 

A taxa de mortalidade infantil é calculada verificando-se, entre mil crianças que nascem, quantas morrem antes do primeiro ano de vida.

 

Ultimamente no Brasil, houve uma diminuição significativa em sua taxa de mortalidade infantil, mas ainda está abaixo do esperado, pois os governos não investiram como poderiam na área social. Com vontade política, é mais fácil reduzi-la.

 

Além desses problemas básicos de saúde, há também crianças exploradas no trabalho, submetidas à prostituição ou vendidas em adoções comerciais para famílias ricas.

A maioria dessas vítimas está no Terceiro Mundo, onde os indicadores sociais são baixos.

 

V - Desnutrição

 

De cada 03 crianças brasileiras menores de 05 anos, uma é desnutrida.

 

No Brasil fala-se em uma “sub-raça”, formada por pessoas de baixa estatura. Conhecida também como “homens – gabirus”, pois são do tamanho dos pigmeus da África.

 

A taxa de desnutrição da maioria dos estados brasileiros é semelhante à dos países mais pobres da África.

 

A desnutrição é resultado de um processo contínuo de carência alimentar. Ingerindo menos caloria (energia) do que o necessário para o correto desenvolvimento, a pessoa não cresce e fica vulnerável a doenças. Por isso, existe uma relação direta entre desnutrição e mortalidade infantil.

 

A desnutrição de uma criança pode começar até mesmo antes do nascimento. Ainda na barriga da mãe, o feto sofre os primeiros efeitos da desigualdade social. A mulher grávida precisa cuidar bem da sua saúde, pois, se ficar doente, vai prejudicar a criança.

 

A desinformação provoca danos irrecuperáveis. É bem maior o risco de as crianças nascerem com baixo peso quando a mãe não tem instrução. Muitas desconhecem a importância do que se chama de atendimento pré-natal.

 

Toda mulher grávida deve fazer esse tratamento, que ajuda a identificar doenças e a desnutrição da mãe.

 

A desinformação continua a causar danos quando a criança nasce. A maioria das mães brasileiras desmama os filhos antes do tempo.

 

A raiz dos problemas gerados pela fome e pela desnutrição está ligada à perversa desigualdade social que impera no mundo. Essa questão comporta implicações não só de caráter político e social, mas também de natureza ecológica e de saúde pública.

 

Atualmente muito se discute sobre os transgênicos, que são organismos geneticamente alterados. Por meio natural ou pela engenharia genética, eles passam a ter genes provenientes de outra espécie. Com isso, consegue-se de modo eficiente um maior rendimento no cultivo desses produtos e, conseqüentemente, um maior lucro.

 

Ocorre que esses produtos às vezes são utilizados de forma inescrupulosa, principalmente nos países subdesenvolvidos, onde a vigilância sobre as leis que deveriam normatizar o seu uso é mais facilmente influenciável pelos que detêm poder.

 

Muitos deles são considerados potencialmente nocivos à saúde.Sem contar o desequilíbrio ecológico que podem causar. Estão proibidos em vários países desenvolvidos.

 

Há, porém, os que defendem o uso dos transgênicos e garantem que não há indícios de que a plantação de transgênicos prejudique o meio ambiente. E que podem ser até mais saudáveis do que os alimentos convencionais, já que possuem menor quantidade de agrotóxicos.

 

De todo modo não é em razão do uso ou não dos transgênicos que milhões de pessoas passam fome no mundo. Há tanta fome no mundo porque a alimento, como a renda, é mal distribuído.

 

VI – Trabalho Infantil

 

O Brasil entrou no século XXI com uma população estimada de 170 milhões de habitantes. Desse total, cerca de 40            milhões vivem abaixo da linha de pobreza.

 

É considerada pobre a família com rendimento per capita igual ou inferior a meio salário mínimo por mês.

 

Desses 40 milhões de brasileiros que estão abaixo da linha pobreza 15 milhões são indigentes.

 

São considerados indigentes as famílias com rendimento per capita mensal igual ou inferior a um quarto do salário mínimo.

 

O Brasil é identificado internacionalmente como um dos países de pior distribuição de renda do mundo. Há extrema concentração de renda e desigualdade social no país. Uma sociedade em que uma minoria tem mais de cinco carros na garagem, casas na praia e no campo e viaja várias vezes por ano, enquanto a maioria fica sem dinheiro para comer ou morar com o mínimo de dignidade.

 

Atualmente, o conceito de democracia significa não apenas direitos políticos iguais (direito a voto, por exemplo), mas também maior acesso à renda nacional. Isso garantiria maiores condições de igualdade, é o que se chama de justiça social, condição para cidadania.

 

Uma forma de reduzir o desequilíbrio social seria o governo cobrar mais impostos de quem ganha mais e aplicar esse dinheiro em escolas, hospitais, etc.    No Brasil, existem grandes distorções na área de impostos, o que só agrava a desigualdade na distribuição de renda. Uma parte do imposto cobrado é indireto, ou seja, está embutida no preço das coisas que compramos.

 

Todos pagam o mesmo imposto. É o que se batizou de imposto regressivo. No imposto progressivo, quem ganha mais paga mais. O imposto progressivo baseia-se na declaração de Imposto de Renda.

 

A sonegação é um outro problema. No Brasil a sonegação pode chegar a 50%, logo, metade dos impostos devidos deixam de ser pagos.

 

Os brasileiros não se conformam em pagar impostos, pois sobram desperdício e ineficiência.

 

Os governantes preparam o orçamento para cada ano. Dizem como e onde vão gastar o dinheiro. Depois o orçamento é enviado ao Congresso, Assembléia Legislativa ou Câmara Municipal para ser aprovado ou rejeitado. Ali os políticos fazem emendas, tentando mudar o destino dos recursos.

 

Quanto mais informado e democrático forem o cidadão e o país, melhor ele acompanha como o governo emprega o dinheiro que arrecada e mais os governantes se sentem obrigados a explicar como usam o dinheiro público.

 

Na década de 1980, conhecida como a década perdida, o Brasil passou por um período de recessão, quebrando uma longa e contínua história de crescimento econômico.

 

Durante alguns anos do regime militar, o crescimento do PIB atingiu picos jamais vistos. Era a época do milagre econômico, em que não faltava emprego.

 

Na década de 1980, a situação mudou, contaminando também a década de 1990. A taxa de desemprego foi crescente e surgiram os subempregados, brasileiros que vivem da economia informal, sem garantias trabalhistas por não terem registro em carteira.

 

Antes nosso país era visto como paraíso tropical, a nação do futuro. Em pouco tempo, virou a terra da violência, da corrupção, da extrema miséria.

 

Na “década perdida” ocorreu uma combinação da recessão (menos emprego) com a inflação (preços mais altos). Ou também a estagflação, mistura de estagnação com inflação.

 

A estagflação foi mais cruel com os mais fracos. Milhões de crianças passaram a trabalhar ganhando pouco e não tinham tempo para estudar.

 

Sem emprego e com as coisas aumentando a toda hora, o povo ficou descontente. Em 1984, essa revolta provocou uma das maiores manifestações de rua já vistas no Brasil, o Movimento pelas Diretas. As pessoas esperavam mudar os rumos do país escolhendo o presidente da República pelo voto direto.

 

Outra manifestação popular ocorreu em 1992, quando o povo defendeu a moralidade e pediu o afastamento do presidente Fernando Collor.

 

Suas decisões econômicas aumentaram a miséria. A crise econômica ajudou a impulsionar movimentos de rua e a pôr na presidência Fernando Henrique Cardoso. Durante seu governo, conseguiu combinar inflação baixa com algum crescimento.

Em 2002, o sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito presidente da República. Os números da economia até que estão razoáveis, mas a situação de miséria da grande maioria da população continua.

 

Junto com o desemprego vem a violência. A recessão atinge diretamente a população. Com ela, cai a produção. Isso acontece porque caem as vendas. E, se o comércio não vende, as indústrias não fabricam. Com isso, também caem os impostos arrecadados pelo governo, afetando faculdades, hospitais, estradas, projetos de saneamento básico, usinas hidrelétricas e telefonia.

 

Com a globalização, que na prática significa maiores facilidades de importar produtos, aumentou a competição e o risco de desemprego. Vem também o impacto das novas tecnologias. Máquinas substituem homens, gerando desemprego.

 

Mas a tecnologia também cria empregos ao abrir vagas em novas funções até então inexistentes. Muitos trabalhadores, porém, não conseguem se reciclar e ficam marginalizados, já que, sem estudo, não podem dominar as novas tecnologias. Ninguém duvida de que o desemprego vai ocupar o lugar que a inflação ocupava como o mais grave problema a ser enfrentado.

 

VII – Urbanização e População

 

As cidades cresceram demais porque milhões de famílias vieram do campo em busca de melhores condições de vida.

 

Quando a estagflação da década de 1980 explodiu, algumas cidades estavam inchadas, cheias de favelas e cortiços. Não havia serviço público básicos nas periferias.

 

O Nordeste tem imensas quantidades de terras férteis e vive na miséria devido à seca. Mas o problema não é o clima. São os governos.

 

Com irrigação, mais terras poderiam ser cultivadas, exigindo mais empregados.

 

O Brasil tem pouco mais de um milhão de hectares irrigados. Calcula-se que, no Nordeste, pelo menos 8 milhões de hectares poderiam ser irrigados.

 

Por causa da crise, quem tinha pouco estudo ficou com menos chances de arrumar emprego.

 

Muitos migrantes voltaram para suas terras, outros viraram mendigos. Famílias se desintegraram. Muita gente virou bandido.

 

O Renda Mínima (Instrumento de política social que garante aos cidadãos beneficiados disporem de um valor mínimo de renda em dinheiro. Caso a renda do cidadão não alcance o mínimo determinado, ele recebe do governo um complemento financeiro para que sua renda atinja esse patamar.), pelo menos em tese, chega aos miseráveis, atuando diretamente nos reforços à educação e à saúde. Crianças bem nutridas e com mais tempo na escola significam o essencial para um país democrático. Mas esses tipos de programas podem causar o grande risco das pessoas se acomodarem com a ajuda, encarando-a como algo para sempre ao invés de provisório.

 

Os males do analfabetismo causam danos a mortalidade infantil. A taxa de mortalidade infantil chega ao seu ponto máximo nas famílias em que a mãe é analfabeta. E vai baixando à medida que a instrução aumenta.

 

Quanto maior a escolaridade, menor a fecundidade e maior a proteção contra doenças sexualmente transmissíveis.

 

A baixa escolaridade, um dos sinais também de reduzido poder aquisitivo, significa desinformação sobre formas de evitar a gravidez e falta de capacidade de argumentar diante do parceiro.

 

O governo tem projeto para aumentar o fornecimento de pílulas do dia seguinte e anticoncepcionais, camisinhas e mais operações de esterilização. Também tem proposta para que o aborto não seja tipificado como crime, reduzindo assim, os abortos clandestinos.

 

No Brasil não existe projeto de planejamento familiar que assegure aos casais mais humildes a capacidade de decidir quantos filhos desejam ter.

 

Como não há acesso fácil à camisinha ou a pílula anticoncepcional, muita gente parte para métodos mais radicais como cirurgia para esterilização, que é irreversível.

 

Muitas nem sabem que a operação é irreversível e algumas não tiveram nem ao menos um filho.

 

A falta de informação sobre a saúde reprodutiva tem conseqüências graves. Muitas meninas prostitutas acabam engravidando, reproduzindo o ciclo da miséria ou aumentando a estatística de aborto e mortalidade.

 

A menina prostituta é a falta de cidadania levada às últimas conseqüências. São forçadas à prostituição com a omissão das autoridades.

 

Atualmente, a mulher brasileira tem, em média, dois filhos. É a taxa de fecundidade. Essa taxa é bem mais alta entre as mulheres pobres.

 

Num regime democrático, ninguém pode impor a alguém o número de filhos que quer ter, para assim acabar com a miséria. Mas o que acaba com a miséria é o crescimento econômico, a distribuição de renda e o investimento social.

 

Antigamente, havia o receio de que o aumento da população provocasse a falta de alimentos. Agora existe também a preocupação ecológica, supondo que, com tanta gente, os recursos naturais se esgotarão.

 

Os países mais ricos, com mais condições de sustentar seus habitantes, têm taxa de crescimento populacional menor do que as nações pobres. Então, reproduz-se a pobreza com maior velocidade.

 

VIII – Meio Ambiente

 

O problema da nutrição está ligado diretamente à renda.

 

As regiões mais ricas, como Sul e Sudeste, oferecem serviços de saúde e redes de água e esgoto melhores. Por isso, mesmo que as famílias ganhem menos as crianças ainda terão condições de ser mais saudáveis.

 

Quanto piores forem as condições de saneamento, maior será a taxa de desnutrição ou mortalidade infantil.

 

Quanto melhor o saneamento básico, menor será a proliferação de germes e bactérias ingeridos com a água e a comida.

 

A preservação do meio ambiente é um fator fundamental para a sobrevivência do homem e muitos projetos vêm sendo desenvolvidos. Um exemplo é um engenheiro paulista que inventou uma técnica de despoluição batizada de flotação – a injeção de ar e produtos químicos na água faz a sujeira flutuar, transformada em flocos, que são depois retirados.

 

Em todas essas experiências, as águas foram descontaminadas. O projeto ganhou a concorrência para limpar o rio Pinheiro e transformá-lo em área de lazer. Estava tudo pronto para as máquinas serem acionadas. Mas o Ministério Público conseguiu convencer a Justiça a impedir a realização do teste, argumentando, baseado em opiniões de técnicos, que não funciona. Enquanto a luta na justiça pelo simples direito ao teste está em procedimento o rio continua poluído.

 

Outro exemplo de preservação ambiental é a reciclagem. Curitiba é o município brasileiro campeão de reciclagem: 20% de todo lixo.

 

Um dos segredos desse desempenho está na educação. O poder público conseguiu convencer a população da importância de reciclar o lixo e, depois, montar toda a operação para coleta seletiva. A população recebe cartilhas didáticas e separam os restos. Há dias diferentes para o recolhimento do lixo orgânico e do lixo reciclável.

 

IX - Educação

 

Num teste feito com alunos de 40 países, alguns deles pobres, o Brasil ficou em último lugar.

 

Esse resultado mostra que, apesar de todos os avanços, a educação no Brasil não está conseguindo se aproximar das demandas da sociedade do conhecimento.

 

O desempenho do aluno tem a ver com ingredientes como envolvimento da família, nível socioeconômico e os estímulos culturais.

 

A escola só conseguirá cumpri sua missão de criar indivíduos autônomos se houver uma ampla integração com a comunidade, compensando a defasagem cultural de seus alunos.

 

Em todas as escolas em que os alunos têm boa vivência cultural e famílias envolvidas, os resultados sempre são melhores.

 

A pobreza reproduz a própria pobreza. A família que é pobre e mora numa casa onde não existe saneamento básico tem o ambiente com grande índice de transmissão de doenças. As doenças enfraquecem o corpo, que já é desnutrido. A criança desnutrida não aprende direito o que é ensinado. E quem não estuda não consegue arrumar um bom emprego.

 

A educação não é apenas uma questão de cidadania. O nível de instrução do trabalhador tem relação direta com a produtividade e, portanto, com a riqueza material de um país.

 

Produtividade significa reduzir o desperdício aproveitando melhor o tempo e os recursos. No Brasil, a taxa de desperdício é muito alta. Com mais instrução, a produtividade poderia ser maior.

 

Cada vez mais a falta de instrução dificulta a vida das pessoas. A tendência é que as empresas deixem de empregar um trabalhador que não pensa. Com o avanço tecnológico, exige-se um operário que raciocine, tome decisões e avalie a qualidade do produto. Ele deve saber manejar máquinas cada vez mais complexas.

 

O trabalhador sem instrução é apenas uma conseqüência previsível de uma sociedade em que as desigualdades são muito grandes.

 

A indicação mais fiel da desigualdade social está nos índices de repetência e evasão. Quando a criança deixa a escola, ela vai para as ruas e só pode se transformar em mão-de-obra despreparada. Os mais pobres exigem que o filho gere renda. Com menos de quatro anos de escolaridade, há uma tendência de se esquecer rapidamente como se escreve ou se lê.

 

A democracia é o regime que garante a liberdade de todos escolherem seus governantes. Mas só existe liberdade quando se pode optar. E só existe opção quando se tem informação. A capacidade de um analfabeto obter informação e processá-la é muito limitada. Essa dificuldade existe para qualquer pessoa desinformada, seja ela analfabeta ou não.

 

Uma nação civilizada se constrói em parte com a democratização do conhecimento. O que implica boas escolas públicas e bons professores.

 

A estrutura da educação indígena é o que há de mais contemporâneo em ensino. O ensino feito à base de observação e experimentação, mesclando o que se aprende na escola com o que se pratica no cotidiano.

 

Com o avanço da tecnologia não ter acesso aos benefícios da informática, a chamada exclusão digital, é visto cada vez mais como obstáculo à conquista do emprego e ao progresso pessoal.

 

Existem muitos movimentos para a inclusão digital, onde aparecem de garis a internos da Febem, espalhando-se pelas periferias em versões empobrecidas dos modernos cibercafés ou em telecentros comunitários.

 

Junto com o anseio de extinguir a exclusão digital, prosperam grupos que pedem mais vagas nas universidades federais e estaduais para facilitar a entrada das chamadas “minorias”.

 

Com muita luta algumas faculdades aderiram o sistema de cotas, no qual reservam vagas para egressos de escolas públicas, negros e afrodescendentes.

 

Os alunos de escolas públicas conseguem entrar na faculdade em número razoável. Mas nos cursos mais disputados, chega a ser desprezível a quantidade de alunos que não veio de instituições particulares.

 

Morar em favelas reduz em 34% a probabilidade e um jovem ingressar na universidade.

 

X - Cultura

 

A cultura, a cada dia ganha mais importância para a questão da cidadania. Isto porque a cultura é hoje parte importante da vida das pessoas.

 

Ao ouvir um CD ou assistir a um filme, também estará consumindo um produto que é produzido por uma indústria que emprega muitas pessoas e que precisa vender cada vez mais para se manter: a indústria cultural.

 

Mas em geral as pessoas não estão muito preocupadas com isso. Querem apenas se divertir, adquirir novos conhecimentos ou cultivar aquilo que lhes dá prazer estético.

 

Podemos pensar então em uma suposta “cultura superior” como as obras de Beethoven ou os quadros de Leonardo Da Vinci e em uma suposta “cultura inferior”, aquelas consumidas pelas massas, como as novelas de televisão ou as canções de amor que tocam nas rádios.

 

A “cultura superior” seria dirigida para os que têm uma boa escolaridade e a “inferior” para os analfabetos ou que possuem instrução mínima.

Nos últimos anos, vem crescendo a participação da cultura no PIB brasileiro. É a indústria cultural, que vai ganhando espaço e influindo na vida de um número cada vez maior de pessoas.

 

A verba que os últimos governos brasileiros vêm destinando ao Ministério da Cultura também vem crescendo, o que prova que estão atentos à importância do setor. Mas não adianta aumentar a verba da cultura se não elevar o nível da educação.

 

Há fortes movimentos de resistência e afirmação das minorias, onde os mesmos fazem sua própria cultura. Nunca na história cultura e cidadania andaram tão próximas.

 

A iniciativa privada e o Terceiro Setor (ONGs) têm tido uma atuação fundamental nesse processo. Os incentivos fiscais, pelos quais uma empresa que estimula a cultura abate parte de seus gastos no imposto de renda, têm tornado realidade muita obra de arte que antes dificilmente chegaria ao público.

 

Conclusão

 

A crise social brasileira e a fragilidade de nossa cidadania afetam todos, mas de modo diferente.

 

Soma-se à falta de articulação metropolitana, a fragilidade de programas de inclusão de jovens combinada com a baixa qualidade do ensino público.

 

Apesar da Declaração Universal dos Direitos Humanos e de todos os modernos códigos legais que regem o nosso país (da Constituição ao Código Civil, do Código Penal ao Código do Consumidor, passando por tantos outros), o Brasil não conseguiu vencer a chaga da desigualdade social e da péssima distribuição de renda.

 

Uma das maiores economias do planeta e, ao mesmo tempo, um dos lugares mais socialmente injustos para se morar.

 

Existe uma rede que une o assassinato de crianças, a violência, a fome e a falta de escola com o desenvolvimento da economia, a crise da educação, a falta de emprego. Entender essa rede contribui para que os jovens possam mudar a realidade e construir uma sociedade verdadeiramente democrática.

 

Bibliografia:

 

DIMENSTEIS, Gilberto. O Cidadão de Papel. 6. ed. São Paulo: Ática, 1994. Número de Páginas: 157 (Série ‘Discussão Aberta’). Disponível em:  < http://pt.oboulo.com/o-cidadao-de-papel-gilberto-dimenstein-19666.html

 

[ Subir ]

 

 

"Só existem dois dias do ano em que não podemos fazer nada. O ontem e o amanhã".

(Mahatma Gandhi)


É permitida a reprodução, desde que citada a fonte!

© 2004-2008 | Tribuna da Praia | Todos os direitos reservados | All rights reserved

Críticas e sugestões são valiosas: tribunadapraia@infonet.com.br